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| heavysmoker |
| Orlando Cardoso |
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18/07/2006 19:50 Este blog tem novo endereço: http://heavysmoker.zip.net Orlando Cardoso | comentários(0)
20/06/2006 00:46 Sete Vidas
T. S. Eliot diz em um de seus poemas que um mistério ronda o nome dos gatos. Segundo o poeta, além daquele pelo qual atendem, os gatos têm um outro nome, secreto, que só eles próprios conhecem e que nenhum ser humano poderá jamais adivinhar. Deve ser verdade, pois gatos são criaturas especiais e, por isso mesmo, cheias de segredos. Eu mesma, por puro acaso, acabo de descobrir mais um.
Estava passeando por entre as estantes de uma livraria quando, de repente, meus olhos pousaram sobre uma pilha de folhinhas temáticas, dessas de parede. Havia de tudo: uma folhinha com fotos de bebês, outra sobre design, uma com paisagens de Paris. E, finalmente, uma de gatos. Era uma das últimas da pilha e seu título me chamou a atenção: 'I gatti di Roma'. Imediatamente parei, como se sacudida por um choque. A capa exibia o pé gigantesco de uma estátua romana, o mármore marcado pelos sulcos do tempo, uma enorme rachadura quase decepando o segundo dedo. E, sobre esse dedo, deitado porém com os olhos muito atentos para a câmara, um gato. Segurei a folhinha com as duas mãos, sem acreditar. Era ele. O gato da fotografia, deitado sobre uma estátua romana, não era um gato qualquer. Era o meu gato-morto no ano passado.
Não que fosse apenas parecido. Era igual. Como não reconhecer cada detalhe? Cada curva das listras que marcavam seu pêlo rajado, os sinais escuros no focinho e em torno dos olhos, o formato das orelhas, a largura das patas, tão grandes já, para o corpo tão jovem - não faltava nada. E mais: o olhar. O olhar que me fitava de dentro daquela fotografia não era outro senão aquele que eu conhecia tão bem. Não podia haver dúvida. Era ele.
É por isso que se diz que eles têm sete vidas. Quando os gatos morrem e desaparecem, na verdade ressurgem em outro lugar do mundo. Lá, nesse outro lugar, o mesmo gato ressurgido, o mesmo 'eu' felino, a mesma individualidade, viverá uma nova vida. E outras sucessivas, em outros lugares, até que se complete o ciclo de sete, ou até mais, porque na verdade tudo isso é um grande mistério. E, em cada lugar onde renascer, o mesmo gato será novamente ele PRÓPRIO - exibindo o mesmo olhar, um perfil idêntico, um jeito igual de esfregar-se contra as quinas dos móveis. Lá estará ele, outra vez, com a mesma sutileza, a mesma meiguice, toda a ética e toda a dignidade que lhe foram peculiares na vida anterior, essa retidão que os gatos têm e que tem sido tão incompreendida ao longo dos séculos.
A descoberta me deixou feliz. Meu gatinho não morreu. Ele vive em Roma, agora. Corre solto por entre velhos monumentos, galgando muros de hera. À tarde, deita-se ao sol sobre imensos blocos de mármore, rajado como seu pêlo, e adormece ouvindo o murmúrio das fontes. Tem outro nome, é verdade. E desse nome nada sei, pois que, como já se disse, nomes de gatos são um mistério que nem os poetas conseguem desvendar. Mas isso não tem importância.
Heloisa Seixas
SETE VIDAS: sete contos mínimos de gatos Orlando Cardoso | comentários(5)
02/06/2006 00:45 Sono

Mais de dois meses depois da última atualização deste blog, volto para confessar que, pela manhã, trabalho em um banco, cujo sistema de vigilância contra ataques de hackers e atividades internéticas indevidas dos empregados é crescente, motivo que levou ao bloqueio desta página no terminal onde costumava escrever as considerações abaixo. Nem por isso vou abandoná-lo (me refiro ao blog, embora também não pretenda deixar o banco), nem usar tal justificativa como a única para a falta de atualização. Mas já que não posso tirar férias dos meus empregos, que pelo menos possa folgar desta atividade não remunerada, única vantagem de não se ter patrão nem salário.
Felizmente algumas pessoas não me abandonaram e sempre passam por aqui para ver se há novidades. Sinto que depois desta pausa algo deve mudar, mas nem tanto. Como este nunca foi um blog de vibrantes notícias e comentários up to date, continuará não o sendo. Mas quem sabe se torne ainda mais pessoal, afundando e chafurdando na vocação que está na origem deste meio de comunicação do século XXI. Quem sabe não se torne veículo para outras experimentações. Só sei que é por incapacidade ou preguiça que não fecho o estabelecimento para abrir outro. Nem mesmo o lay out tenho coragem de mudar. Quem sabe se eu pudesse dormir tanto quanto gostaria teria mais disposição. O problema é que quando posso, não durmo. Mesmo assim me aguardem, que a minha morte não é para já. Orlando Cardoso | comentários(1)
23/03/2006 12:08 Eu não sabia que a culpa era minha

Os boêmios, notívagos, quase alcoólatras de Belém não sabiam, até semana passada, que eram também culpados pela violência e pela criminalidade que assolam Belém do Pará. Nossa culpabilidade veio à tona pela iniciativa da Polícia e da Câmara de Vereadores, que decretaram o fechamento dos bares à meia-noite, como forma de tornar a cidade mais pacífica.
Tudo bem, esta semana, o puritanismo e o capitalismo, irmãos de sangue, chegaram a um consenso e os bares, pelo menos os fechados, com ar-condicionado, isolamento acústico e etc, já podem ficar abertos até, pelo menos, 4h da madrugada, aos finais de semana.
Ótimo para os bebedores de melhor condição financeira. O prejuízo ficou mesmo para o bebedor da periferia, que além de sofrer com ônibus precários e lotados, ruas esburacadas e enlameadas e a presença constante dos bandidos, deve ficar trancado em casa, para o bem das estatísticas de segurança pública, que comprometem a boa imagem dos governos. Um toque de recolher informal.
Tudo contra os treme-terras que desafiam o limite da capacidade do ouvido humano. Estes deveriam inventar algum tipo de rave tecnobrega e promover festas em lugares isolados, ermos, para não prejudicar o sono da vizinhança. Mas tirar o direito do morador da periferia de ir ao bar relaxar no final do expediente, ou no final de semana, enquanto se preserva o direito do quem vai ao pub degustar sua garrafa de whisky reservada, é tão antidemocrático, a despeito de ser, no momento, a posição politicamente correta e dominante em Belém.
Por que a polícia não melhora a segurança na periferia, vigiando para evitar assaltos e violência? Não para extorquir quem é pego fumando um baseado, como flagrado recentemente pelo Ministério Público Militar, mas para garantir a ordem pura e simples?
Quem vive da noite e na noite agradece. São músicos, garçons, microempresários que precisam sobreviver, mas estão proibidos de funcionar, enquanto supermercados 24h de grandes redes podem vender bebida alcoólica durante toda a madrugada. Como se vê, em todos os exemplos, é o poder econômico que conta, também na hora de restringir a diversão. Quem pode, pode.
Orlando Cardoso | comentários(5)
10/03/2006 13:44 Banho de sangue Enquanto todo mundo fica chocado com a ação das mulheres do MST contra a Aracruz, os madeireiros do Pará fazem uma ameaça medonha e a repercussão é nenhuma. Veja o que deu no Liberal de quinta-feira.
Santarém
Agência Amazônia
Produtores rurais prejudicados com a criação de reservas florestais na região oeste do Pará decidiram radicalizar. Em reunião realizada anteontem, em Itaituba, eles decidiram que se o governo federal não voltar atrás na medida vão botar abaixo toda a mata existente em uma das reservas criadas no dia 13 de fevereiro por decreto assinado pelo presidente Lula. Eles também vão acionar a Justiça contra a medida. (...) O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, esteve presente à reunião em Itaituba e fez revelações surpreendentes, avisando que um banho de sangue pode ocorrer na região se o governo insistir em manter as reservas florestais. “Estamos articulando uma grande manifestação com o uso de 500 a 800 motosserras. A idéia é botar abaixo toda a mata de uma das reservas e no verão colocar fogo. Vamos interditar a rodovia colocando cinco mil pessoas no meio da estrada”, revelou Agamenon Menezes.
Resta saber se eles vão entrar na Justiça antes ou depois de cometer o crime. Orlando Cardoso | comentários(5)
02/03/2006 12:56 Saiu o Cruel

Doze anos depois da sua morte, o cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio lançou disco novo: “Cruel”, pela Sarava Discos, a pequena gravadora do Zeca Baleiro, que operou o milagre tecnológico de pegar a voz do Sampaio registrada em fitas K-7 em apresentações ao vivo ou gravações caseiras para acrescentar arranjos novos, resgatando dessa forma obras-primas nunca lançadas, seja porque a morte levou o Sérgio antes, seja porque ele vivia marginalizado pelas gravadoras.
As gravações caseiras do Sérgio Sampaio, que ele pretendia transformar no seu quarto LP, o Cruel, já circulavam há anos em gravações piratas entre os fãs. Quem ouve pira porque é muito bom. Dá para ver que o Sérgio chegava à sua melhor fase como compositor quando a morte o levou, em 1994.
Mas parece que é sina. O Cruel, como todos os discos da Saravá, só pode ser comprado pelo site do Zeca Baleiro (http://www2.uol.com.br/zecabaleiro), tem tiragem limitada e logo vai virar raridade.
Mesmo assim, o lançamento preenche uma lacuna, mas não todas. Ainda falta a gravadora que detém os direitos sobre os primeiros compactos do Sérgio Sampaio lançá-los em CD, o que nunca aconteceu. São obras primas como Coco Verde, Ana Juan, Foi Ela e outras, que só têm circulação marginal, em CDs piratas, entre os fãs.
Taí mais uma bandeira para a luta incansável da dinâmica comunidade do Sérgio Sampaio no Orkut. Quando ingressei na mesma eram pouco mais de 200 membros, hoje são mais de mil, entre eles o próprio filho do Sérgio Sampaio, o Menino João (título de uma canção linda e inédita que o Sérgio fez para o filho pequeno) e centenas de outros arqueólogos da música brasileira, sempre procurado pérolas na lama da nossa indústria cultural.
Orlando Cardoso | comentários(17)
02/03/2006 12:15 Túmulo do samba

Belém chegou lá, já pode ser comparada a uma metrópole em termos de carnaval, só que a metrópole, no caso, é São Paulo, onde é tradicional a fuga dos cidadãos-foliões para as praias, deixando a cidade deserta e tranqüila. O esvaziamento do carnaval de Belém foi consolidado pela própria prefeitura, que deu o tiro de misericórdia na agonizante organização das escolas e blocos da cidade.
O argumento que esse tipo de espetáculo vinha perdendo público a cada ano é verdadeiro e serve como desculpa para a falta de apoio ($$$) oficial às agremiações, mas o argumento de que as escolas de samba de Belém não têm base na cultura popular e fazem meras cópias dos desfiles do Rio de Janeiro não se sustenta. Como, se o Rancho tem mais de 90 anos de vida e todas as agremiações surgiram da iniciativa popular. O samba não é nenhum modismo ou novidade da estação. O mesmo não se pode dizer da Banda Calypso, cuja apresentação na Aldeia Cabana foi patrocinada pela prefeitura como ponto alto do Carnaval Amazônico e como símbolo da valorização da cultura regional, em substituição ao samba alienígena.
Tenho o maior orgulho de nunca haver guardado na memória nenhum tema musical dos Calypsos, mas nas únicas vezes em que ouvi o som da banda pude constatar que se trata de música da pior qualidade. Não temos nenhuma obrigação de gostar do grupo só porque eles buscam inspiração na fusão de ritmos caribenhos que invadiu a Amazônia pelas ondas do rádio nos anos 60 e 70 e ganhou forma na lambada amazônica, cujo resgate de qualidade tem nos Mestres das Guitarradas seu melhor representante. Música, quando é boa, independe do rótulo e o Calypso não é bom.
Como não se pode errar todas, pelo menos a prefeitura acertou ao proibir trios elétricos nas ruas de Belém e Mosqueiro durante o carnaval. Mas dizer que o samba de Belém não é cultura popular e que Calypso o é, é demonstrar pouca noção da nossa realidade cultural.
Na foto Adoniram Barbosa, legítimo representante do bom samba que se fez na cidade que já foi chamada de túmulo do gênero, para provar o quanto a cultura do samba é mesmo generalizada no País do Carnaval.
Orlando Cardoso | comentários(1)
10/01/2006 14:51 Eu quero é botar meu blog na rua! Chega de desculpas para o abandono deste blog desde o final do ano passado. Tudo bem que as férias acabaram, mas o sonho continua vivo, apesar da falta de tempo e da rotina estressante de dois empregos, das noites pouco dormidas e da quase bancarrota deste início de 2006, pós-despesas de final de final de ano. O buraco nas finanças se resolve com o tempo – no momento em que escrevo, a lente direita do meu velho e torto óculos saltou sozinha da armação, pode tamanha decadência? -, portanto, não vou tentar arranjar um terceiro emprego; o que não posso é deixar meus leitores fiéis desamparados.

Campeão de audiência na virada do ano foi o DVD Phono 73, com inéditas imagens do mito Sérgio Sampaio durante os três dias de shows promovidos pela antiga gravadora Phonogran, adivinhem, em 73, com todo o seu cast, num tímido manifesto contra a censura rigorosa da época. Estavam todos lá, no auge da fúria e do talento, magérrimos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Raul Seixas, Jorge Bem, Gilberto Gil, Elis Regina, Chico Buarque etc, etc, etc. Entre eles, o magro dos magros, Sérgio Sampaio, em uma interpretação escandalosa de “Eu quero é botar meu bloco na rua!” - o grande hit daquele ano -, em uma interpretação alheia ao andamento original da marchinha, com uma coreografia que imita o ato sexual e que causou furor na platéia.
Sérgio estava no auge, com um casaquinho feito de tapete de retalhos – daqueles que minha mãe fazia costurando restos de tecido – e proporciona um dos grandes momentos do DVD, de apenas 35 minutos, com fragmentos de imagens colhidas em película dos shows históricos.
Outros grandes momentos são a tentativa de Gil e Chico de interpretar “Cálice”, então censurada. Proibidos de cantar a letra, levaram a melodia interpretando sons onomatopaicos, tipo olerê, laralá, arroz à grega, lalaia, enquanto o Chico berrava cada vez mais alto o refrão: Cale-se! Então, os próprios responsáveis pelo show começaram a cortar o som do Chico, temendo represálias. É um retrato da época.
Outro ponto alto é a interpretação teatral de Caetano para “A volta da asa branca”, uma espécie de continuação do clássico “Asa branca”, que dá a dimensão do tempo que separa aquele Caetano do senhor que conhecemos hoje em dia. Ele chora, dança e se joga no chão trajando um macacão florido que deixava o tórax descoberto, numa interpretação que chocante para a época, que mostra toda a influência de Luiz Gonzaga e Mick Jagger sobre o então vanguardista poeta, cantor e compositor baiano.
O histórico beijo na boca de Gal Costa e Maria Bethânia, outro ponto alto do Phono 73, também não está registrado em imagens, apenas em fotografias coladas sobre os fragmentos da dupla cantando a pegajosa “Oração para Mãe Meninha”. Dá pra ver como eram magras e belas aquelas duas e como o tempo é implacável.
O DVD, junto com dois CDs que resumem os três LPs do Phono 73, lançados originalmente naquele ano e relançados depois em CD nos anos 90, só foram encontrados na fantástica Modern Sound, da rua Barata Ribeiro, em Copacabana, um mundo como não existe nada igual em Belém e dificilmente haverá nos próximos anos, com milhares de discos arrumados em ordem alfabética, praticamente tudo o que existe em catálogo de música brasileira.
Quando eu e Jecy estávamos comprando o Phono 73 (R$ 90) - obrigado Jecy! -, o Marcelo Camelo, do Los Hermanos, estava na mesma loja, com o mesmo artigo na mão, enquanto vasculhava outros discos e conversava com um gringo que o acompanhava, about some excelents brazílian musics e etc, enquanto eu, com ar desinteressado, tentava ouvir a conversa.
Mas nada de tietagem, que tenho pouca ou nenhuma intimidade com o som dos Los Hermanos, diferentemente de quando encontramos o Luís Melodia numa esquina de Copacabana e logo engatamos conversa, justamente sobre o Phono 73, que ainda estávamos caçando no Rio de Janeiro. Depois da tradicional foto com o ídolo, o Melô reclamou que esteve lá e cantou no Phono 73, mas não teve sua participação editada no DVD e nem nos CDs. Não sei se foi incluído nos LPs originais. O Arthur Xexéo, numa crítica nO Globo, também reclamou da edição do DVD. Entendo que só fizeram poucas imagens, segundo os produtores na época, porque o rolo de filme era caro. Se tivessem gravado tudo, o valor histórico hoje seria imenso.
Para animar o Melodia, cantamos para ele um trecho da vinheta composta pelo Sérgio Sampaio em sua homenagem:
“Luís Melodia melhores dias virão, negão!
Luís Melodia melhores dias virão.
É só não botar a viola no saco.
Joga fora o guardanapo vem comer com a mão...
Eu e meu amigo Melô Orlando Cardoso | comentários(6)
26/11/2005 12:44 Paraenses em Copacabana
Estou aqui no Rio de Janeiro constatando a grande atração que esta cidade exerce sobre os paraenses, assim como sobre os gaúchos, já bem explicitada nas crônicas de Paulo Mendes Campos que li quando criança, sobre seus amigos papa-chibés que em tudo se integravam à cidade de São Sebastião, com exceção da saudade que sentiam da culinária paraense, daí a diversão que provocavam nos cariocas, naqueles idos anos 50, com o tráfico de farinha baguda, casquinha de muçuã, cupuaçu, tucupi e outras iguarias, capazes de reunir em torno da mesa os paraenses dispersos na Cidade Maravilhosa. Tanta admiração pelo Rio encontrou uma via de mão dupla, advinhem, justamente num dado culinário. Hoje o açaí é uma das bebidas mais cariocas do mundo. Tá, alguns são sofríveis: um refresco fraco misturado com banana para engrossar, mas que já faz parte do cotidiano dos cidadãos do Rio. De office-boys cansados a esportistas frenéticos, todos param para saborear o suco, considerado energético. E eu me lembro que no Pará o açaí combina mais com rede, para uma sonolenta digestão.
Parece que assim como os paraenses, os gaúchos também são daqueles que se encantam à distância e mais ainda de corpo presente com o Rio de Janeiro. Como pude constatar, novamente, desde infância, na leitura dos livros de Érico Veríssimo, e agora, no livro lançado este ano, que conta a história do jornalista Tarso de Castro, fundador do Pasquim, que se tornou, como disse o Caetano Veloso, um símbolo do homem da Zona Sul naqueles anos 60. A leitura é fascinante e combina com o momento destas férias que estou gozando. E por falar no mano Caetano, a leitura da biografia do Tarso está sendo interlacada pela do livro que reúne os melhores textos do Caetano: "O mundo não é chato". Ótimo ler na areia de Copacabana, nos dias em que dá praia, tomando a caipirinha da barraca do Hulk, às proximidades de habitués como a eterna Garota de Ipanema, a Helô Pinheiro, que parece ter trocado de bairro e está todos os dias por ali.
Orlando Cardoso | comentários(1)
17/10/2005 13:13 Eu digo SIM

Este blog é a favor da proibição da venda de armas no país, senão por uma questão filosófica, ou de princípios - pela nossa evolução para um ser humano capaz de viver em comunidade sem precisar matar outro da mesma espécie; mas também porque temos que ser capazes de reconhecer a nossa fragilidade moral. Quantos de nós já tivemos a vontade de matar alguém? Aquele chefe burro e prepotente? Aquele colega preconceituoso e intolerante? Pessoas desagradáveis em geral? É melhor não arriscar andar por aí armado para não cair na tentação fácil de pipocar o próximo. Por isso, no próximo domingo, voto SIM. Orlando Cardoso | comentários(2)
13/10/2005 14:15 Ser pobre não é defeito...

Uma grande tristeza tomou conta de mim diante das cenas de uma multidão invadindo o Mangueirão para ver nada mais do que o treino da Seleção Brasileira. A tristeza decorre da constatação da pobreza extrema daquela gente humilde que habita as redondezas do Estádio Edgar Proença, sem opção de lazer, sem educação e cultura, aferrando-se a um acontecimento insignificante como se fosse o último oásis do deserto das suas vidas.
Não tenho vergonha das nossas faces indígenas, pelo contrário, me orgulho da nossa mistura étnica, da nossa beleza amazônica, do nosso caldeirão cultural negro-indígena-português. Minha avó costumava cantar a plenos pulmões: “Ser pobre não é defeito, mas sim infelicidade”. Não tenho vergonha deles, sinto vergonha por eles, por nós.
Nossa gente mal-alimentada recebe altas doses de cultura de baixo nível; falta-lhe educação para analisar criticamente os acontecimentos que nos cercam. Nada contra curtir a presença da Seleção; todos sabemos do fanatismo dos paraenses pelo futebol, mas é preciso saber dar a cada acontecimento a sua devida importância.
Quantas daquelas pessoas que arriscaram a própria vida e a de outras, incluindo crianças, nunca foram estimuladas a ler um livro, nunca tiveram acesso a bom conteúdo televisivo ou cinematográfico, nunca foram ao teatro, não admitem outra música que não seja a de pior qualidade, e pior, não são estimuladas a evoluir.
Nossa educação pública mal ensina as pessoas a ler e escrever o próprio nome. Quantas pessoas que concluíram o ensino fundamental são analfabetos funcionais. Quando vamos priorizar a educação e tirar nosso povo da ignorância, ou será que não interessa aos governantes que as pessoas sejam mais do que massa de manobra, iludíveis com o mínimo de pão e um eventual espetáculo de circo.
Orlando Cardoso | comentários(2)
22/09/2005 12:48 O sindicalismo no poder (E agora Lula?)
Quem viveu se lembra. No começo dos anos 80, a ditadura militar dava sinais de enfraquecimento e a grande novidade da abertura era Lula e os grevistas do ABC. O primeiro movimento de massas a enfrentar o regime desde 1968 escancarava as fraturas do regime, que começava a cair de podre, minado pela inflação e pela derrocada do milagre econômico, derrubado pela crise do petróleo. Lula era o fato novo que vinha se somar às grandes personalidades da oposição que resistiram aos militares no Congresso, tais como Ulisses Guimarães, Paulo Brossard etc.
Nas eleições que aconteceram nesses estertores da ditadura, em 1982, a linha de frente da oposição ainda era do PMDB, continuação do histórico MDB. O PT, surgido da luta do metalúrgicos, associados à esquerda da igreja católica, com sua frente de atuação no campo, na resistência dos trabalhadores rurais, eram os radicais, encarados mais ou menos como o PSTU nos dias de hoje, porém, com o halo da novidade. Mesmo assim, só uma minoria votou no PT. No Pará, o candidato ao governo foi Hélio Dourado (alguém se lembra).
Algum tempo depois, o PT fez o seu único vereador em muito tempo em Belém: Humberto Cunha. Na vanguarda da macha que atropelou a ditadura estava ninguém menos que Jader Barbalho.
Logo o PMDB, aliado aos dissidentes fisiológicos da Arena/PDS que formaram o PFL, chegou ao poder, senão com Tancredo, mas com Sarney. A democracia estava instalada. A censura não existia mais. Os militares saíram de cena. Novos líderes políticos assumiram, mas pouca coisa mudou em benefício da população. O fisiologismo, os interesses particulares e escusos continuaram, a ponto de desfigurar o PMDB, convertido num grande balcão de negócios.
O PT, na oposição, continuava puro e o heroísmo daqueles primeiros tempos cobriu o partido de uma mística. Era a vanguarda da esquerda, onde estavam os jovens que se interessavam por política e que criticavam não só a burguesia no poder quando a esquerda tradicional, do PCB, acomodada por longos anos sob o grande guarda-chuva do MDB.
Como um grande produto de marketing, uma coca-cola para os universitários de esquerda, o PT fez sucesso no campi com a venda de estrelinhas vermelhas, botons de Che Guevara e palavras de ordem criativas cujo ponto de partida era sem o “fora (presidente da ocasião), a solidariedade aos que lutavam pela reforma agrária, o apoio às greves de trabalhadores, a conquista dos direitos humanos, tudo resumido no incentivo à participação popular.
Sim, se há um mérito que deva ser dado ao PT nesses 25 anos é o de haver contribuído grandemente para fortalecer a democracia no país ao servir de canal para a participação popular, através de movimentos de moradores, de trabalhadores com ou sem terra, de sindicalistas do setor público e do privdo, de donas-de-casa, de negros, de índios, de homossexuais etc.
Essa parcela crescente da população que participa e comprava estrelinhas do PT surpreendeu os históricos caciques da oposição à ditadura naquele ano de 1989, quando personagens mais ou menos históricos como Brizola, Ulisses Guimarães e Mário Covas foram deixados para trás por Lula, a quem coube a missão de enfrentar e perder por pouco para o arrivista-populista Fernando Collor. Qualquer dia vou fazer um exercício histórico do tipo: e se Lula tivesse ganhado aquela eleição?
Mas ele perdeu. Mas o PT continuou crescendo, conquistando prefeituras, governos. Porém, não há como negar que o PT era diferente de outros partidos. PMDB, PSDB, PFL, PP etc, no poder e fora dele, não representavam nem defendiam os trabalhadores, a participação popular, a reforma agrária. Representavam os interesses dos seus doadores de campanha: empresários; donos de terras. Pensavam em ajudar o povo ajudando os ricos, que gerariam empregos para os pobres, pagando poucos impostos e sem perturbações da ordem.
Eles sempre souberam o que era melhor para nós; que deixássemos com eles, que sempre tomaram conta do Brasil. São os descendentes dos senhores de escravos, dos latifundiários, os que forma estudar na Europa, que expulsaram os negros para os morros quando a economia fincada na escravidão caducou, que extraíram borracha, plantaram cana, criaram gado com a mão-de-obra barata e escravizada do campo, que fizeram a Independência, a República, a Revolução de 30, a Redentora. Eles que derrubaram a ditadura quando ela não se agüentava mais e assumiram as rédeas, defendendo seus 10% aqui, seus 20% ali, numa grande ação entre amigos, enfim, os donos do Brasil.
Como aquele partido do boton de estrelinha vendida nos campi, dos panfletos distribuídos nas portas das fábricas, conseguiria superar esse poderio político e econômico dominante no Brasil há 500 anos. Seria preciso que cada um de nós comprássemos milhares de estrelinhas por ano para sustentar o partido.
Com pressa de chegar ao poder, o PT usou táticas de guerrilha não-armada, passou por cima da lei em nome da boa causa. Ao assumir o poder em prefeituras e governos, resolveu expropriar da burguesia os fundos necessários para fazer campanhas capazes de impressionar a massa da população menos politizada, que vê as eleições como um jogo de futebol que não gosta de ficar do lado mais fraquinho, aquele que sempre perde.
Era preciso fazer grandes showmícios, fazer campanhas caras como as dos outros partidos, dar, em vez de vender camisetas, fazer caixa. No entendimento maquiavélico-terrorista de que os fins justificam os meios, as prefeituras do PT cobraram propina dos prestadores de serviços urbanos, senão para enriquecer seus membros, mas para fortalecer a entidade suprema: o partido que levaria o povo ao poder.
Perigoso o fio desta navalha em que caminharam as tendências agrupadas no chamado Campo Majoritário, que dominou o partido nos últimos dez anos. Politicamente, aproximaram-se do centro, para reduzir as desconfianças do entendimento médio contrário ao radicalismo, enquanto, por trás das cortinas, ignoraram a lei para manipular os recursos públicos em favor da causa. Ignoraram que a democracia depende de regras que valem para todos e que, como é sabido, pau que bate em Chico bate em Francisco. Estão agora todos metidos no mesmo saco: os que cobraram 10% de propina para construir uma casa na praia e os reivindicavam o mesmo percentual para o caixa do partido que combateria a burguesia.
Ao chegar ao poder, em 2002, o PT se consolidou como a principal força política do país; aquela que possibilitou a participação popular que milhões de pessoas, que aglutinava os anseios dos excluídos, a rebeldia estudantil, o novo na política brasileira, até mesmo a ética no trato da coisa pública. Esse gigante, mesmo ferido de morte, se recusa a morrer e tem força, como pôde ser visto na recente eleição interna para o comando do partido. Que outra agremiação partidária proporcionaria tal mobilização de militantes para eleger seu presidente e seus dirigentes locais?
O tamanho do PT também serve de indicador do tamanho do prejuízo que o escândalo das propinas causou à esquerda brasileira. Os militantes do PT sabem disso e vivem num misto de estupefação, tristeza e raiva. A questão agora é saber que o maior partido do Brasil terá tempo de se recuperar nos próximos meses, que antecedem as eleições de 2006? O julgamento das urnas será a verdadeira sentença de todas as CPIs. Até lá, vivemos mais uma típica tragédia política latina, daquelas com gosto de tango amargo.
Orlando Cardoso | comentários(3)
21/09/2005 13:44 Cabanagem em Goianésia A mistura é bombástica. A população é torpedeada todos os dias por denúncias e mais denúncias de corrupção: deputados que recebem mensalão para votar com o governo, presidente da Câmara que recebe propina de dono de restaurante, Maluf se dizendo injustiçado depois de roubar milhões e milhões. É fácil perceber por que não sobre dinheiro para a saúde, para a educação, para melhorar os salários, para melhorar a vida e combater a criminalidade. Um dia a panela de pressão explode. Para quem não sabe, a população do município de Goianésia, no Pará, revoltada com o desaparecimento de uma criança e a inoperância da polícia em prender os culpados, teve uma reação desproporcional ao fato até corriqueiro em dias de tanta violência, mas que não deixa de ser despropositado em relação ao quadro de abandono traçado acima. O alvo foi justamente o poder público: delegacia, prefeitura, casa do prefeito etc, tudo foi incendiado e reduzido a escombros. O ato foi político sim, não tenham dúvidas, mas foi muito mais político do que suspeitam tais autoridades. É preciso saber ler o significado dos acontecimentos. A paciência das pessoas está se esgotando. O que a população revoltada quis dizer é: vamos tratar com mais seriedade o dinheiro público, governar para o povo, ou tudo será posto abaixo. Orlando Cardoso | comentários(1)
07/09/2005 19:34 Dear Mr. Bush Tradutores automáticos de internet estão cada vez melhores. Basta um pouco de conhecimento da língua para fazer algumas adaptações e eis a tradução da carta do Michael Moore para George W. Bush, acerca da tragédia de New Orleans. É bom ouvir críticas ao presidente alheio só para variar.
Sexta-feira, 2 de setembro de 2005
Caro Sr. Bush: Alguma idéia de onde estão todos os nossos helicópteros? É o quinto dia do furacão Katrina e milhares permanecem encalhados em Nova Orleans, precisando ser resgatados. Em que ponto da Terra você perdeu todos nossos helicópteros militares?
Você precisa de ajuda para encontrá-los? Eu uma vez perdi meu carro em um estacionamento. Cara, foi um transtorno.
Por acaso você tem alguma idéia de onde estão nossos soldados da Guarda Nacional? Nós poderíamos realmente usá-los como se deve agora, no tipo de coisa para a qual eles se alistaram e gostam de ajudar: desastres nacionais. Como eles não vieram, não houve ajuda.
Na última quinta-feira eu estava no litoral do sul da Flórida quando o olho do furacão Katrina passou sobre minha cabeça. Naquele momento era somente um furação categoria 1, mas já era bastante assustador. Onze pessoas morreram e, como hoje, havia pessoas sem poder se locomover. Naquela noite o homem do tempo disse que a tempestade estava a caminho de Nova Orleans. Era quinta-feira.
Eu sei que você não quis interromper suas férias e eu sei você não gosta de ouvir más notícias. Mais, você tinha que angariar fundos e ignorar todas aquelas mães de soldados mortos. Você mostrou a elas! Eu gosto especialmente de como, no dia após o furacão, em vez de voar para a Louisiana, você voou para San Diego para se encontrar com as pessoas que cuidam dos seus negócios.
Não deixe as pessoas criticarem você por isso - apesar de tudo, o furacão já havia passado e o que você poderia fazer? Por seu dedo no dique?
E não escute aqueles que, nos próximos dias, revelarão como você reduziu o orçamento do corpo de engenharia de construção de Nova Orleans neste verão pelo terceiro ano seguido. Diga-lhes apenas que mesmo se você não tivesse cortado o dinheiro para reparar aqueles diques, não haveria mesmo nenhum coordenador do Exército para consertá-los porque havia um trabalho muito mais importante para eles – A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA NO IRAQUE!
No dia 3, quando você finalmente deixou sua casa de férias, eu tenho que dizer que fiquei comovido quando você mandou seu piloto nº 1 da Força Aérea descer das nuvens e sobrevoar Nova Orleans. Assim você pôde dar uma rápida olhada no desastre.
Tudo bem, eu sei que você não poderia descer de megafone em punho sobre uma pedra e agir como um comandante em chefe. Fazer e acontecer. Haverá quem tente politizar a tragédia e usá-la contra você. Fique tranqüilo e deixe que eles falem. Não responda nada. Mesmo aqueles cientistas desagradáveis que previram que tudo isso aconteceria porque a água no Golfo de México estava cada vez mais quente, tornando uma tempestade inevitável. Ignore-os e todo o seu papo furado sobre aquecimento global. Não há nada demais em um furacão F-4 que viajou de Nova York a Cleveland.
Não, Sr. Bush, você está no rumo certo. Não é sua culpa que 30% de Nova Orleans vivam na pobreza ou que dezenas de milhares não tenham tido nenhum transporte para sair da cidade. Ora, são pretos! Isso não aconteceria em Kennebunkport. Você imaginaria deixar pessoas brancas em seus telhados por cinco dias? Não me faça rir! A raça não tem nada - NADA – a ver com isso!
Não ligue para isso, Sr. Bush. Apenas tente encontrar alguns de nossos helicópteros do Exército e para mandá-los até lá. Finja que as pessoas de Nova Orleans e da costa do Golfo estão perto de Tikrit.
Seu, Michael Moore
MMFlint@aol.com
www.MichaelMoore.com
P.S. Essa mãe irritante, Cindy Sheehan, não está muito longe seu rancho. E dúzias de outros parentes de mortos na guerra do Iraque estão agora cruzando o país, parando em muitas cidades. Talvez você pode pegá-los antes que cheguem à capital, em 21 de setembro. Orlando Cardoso | comentários(0)
06/09/2005 00:54 Um abraço em Sérgio Sampaio

Uma pequena pérola de Sérgio Sampaio, gravada em compacto de 1977, no lado B de "Ninguém vive por mim". Hoje uma raridade cultuada pelos sampaiófilos, já que nunca saiu em CD, mas circula pela internet e em discos piratas trocados como tesouros. A letra de "História de um boêmio (Um abraço em Nelso Gonçalves) é um daqueles paralelos que o Sérgio traçava entre uma personagem e a sua própria trajetória. Ao homenagear o grande Nelson Gonçalves, pintou de forma poética sua própria vocação boêmia e artística, uma espécie de maldição que o coloca no Hades dos grandes artistas marginalizados na música brasileira. Se ainda estivesse vivo, Sérgio Sampaio seria tão reconhecido quanto Tom Zé, que saiu do mesmo inferno para o Olimpo dos justos. Mas a vida boêmia cobrou seu preço e deu o troco: uma pancreatite matou Sérgio Sampaio em 1994, no final de um período de ostracismo (mais de dez anos sem gravar), porém, em pleno vigor criativo, como poderemos comprovar em "Cruel", o disco produzido e arranjado por Zeca Baleira sobre a voz de Sérgio, o disco que preparava quando a Ceifadora o levou. A previsão de lançamento agora é agosto e o disco provavelmente só será comprável pela internet. Na foto, Sérgio e Jards Macalé, em 1988.
História de um boêmio (Um abraço em Nelson Gonçalves)
Há muito que eu trago no sangue comigo
A febre de um samba que é meu amigo
Há muito que eu molho seus olhos enxutos
Há muito que eu canto eu só sei cantar
Já fui derrotado brigando num ringue
Cantor consagrado de tango e suingue
Depois destronado, depois um bandido
Há muito que eu canto, eu só sei cantar
Pelas madrugadas boêmio convicto
Bebendo um traçado, cantando sozinho
Um samba quadrado até o sol reclamar
Eu hoje não posso ficar em silêncio
Depois de reinar neste palco imenso
Há muito que eu canto eu não posso parar
Eu hoje não posso ficar em silêncio
Depois de reinar neste palco imenso
Há muito que eu canto eu não posso parar
Orlando Cardoso | comentários(2)
19/08/2005 12:48 A luta continua? Que m...! ISTOÉ – O sr. se preocupa com a morte?
Gullar – Quando a gente vai avançando em idade pensa que está mais perto de morrer. Eu me preocupo mais com a morte do meu gato (Gatinho, 16 anos) do que com a minha. Mas vejo a morte de forma tranqüila. Quem morre, acaba; é como se nunca tivesse existido. Por isso, digo que o sentido da vida são os outros. A morte é como um cochilo. O ruim é morrer sofrendo, ficar numa cama com dores, agulhadas. Aí é barra pesada.
ISTOÉ – O sr. acredita em Deus?
Gullar – Nós inventamos Deus. Não existe. Mas a religião é fundamental. As pessoas precisam dela. Não é por acaso que a religião sobreviveu a todo o materialismo. Ela é fundadora e preservadora de valores sociais. O fato de eu não ser religioso não significa que eu menospreze ou diminua a importância da religião. Talvez a mais extraordinária criação do ser humano seja Deus.
O melhor trecho da entrevista do Ferreira Gullar à Istoé desta semana me inspirou a escrever uma espécie de ficção, sobre como reagiria o poeta depois da sua morte, ao constatar aborrecido que a tranqüilidade, ou o sonho de não ser, não existe. Não se trata de defender nenhuma das duas hipóteses: a do ser eterno ou a do não ser somente, mas sim e tão simplesmente de uma fantasia.
José Ribamar Ferreira abriu os olhos, mas logo cerrou as pálpebras novamente por causa do excesso de luz. Ainda coçando as pálpebras com as mãos ergue o dorso da cama de lençóis brancos onde estava deitado, mas tombou novamente de costas ao reconhecer as pessoas que o cercavam. Seus olhos esbugalhados miravam rostos sorridentes que jamais imaginaria ver ou rever pessoalmente: Vladimir Ulianov, o Lênin; Leon Trotsky; Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança.
Entendeu perfeitamente quando um jovial Lênin, coçando o cavanhaque, disse em russo:
- Entendemos a confusão do camarada, afinal, passamos a vida sem acreditar na sua continuação após a morte e também tomamos o mesmo choque. Agora pode fechar essa boca e levantar desta cama, que isso não é posição de revolucionário. A luta continua aqui neste plano e você é um dos nossos. Precisamos conquistar D.E.U.S -.
- De-de-us!?!?!? Deus existe? -, balbuciou o poeta Ferreira Gullar, ainda confuso com a própria morte, que o surpreendeu quando rabiscava em sua escrivaninha em um calmo final de tarde de belos tons avermelhados no crepúsculo de Copacabana, no Rio de Janeiro.
- Bom. Na verdade não estávamos completamente errados -, diz Trotsky, tentando tranqüilizar o poeta.
- Deus não existe como indivíduo -, completou Prestes, com um sorriso amistoso para o velho companheiro. - É uma sigla que, na linguagem celestial, aquela em nos expressamos a partir de qualquer outra língua, como se nunca houvesse existido uma Babel, significa o Conselho dos Espíritos que Mandam, aqueles que estão no poder, legitimamente eleitos pelos outros espíritos que, por seus méritos, conquistaram o direito ao voto -, explicou Prestes, antes de acrescentar: - Aqui também existe divisão de classes, mas o mérito não é a riqueza, mas a sabedoria e a inteligência. Os melhores votam e os melhores entre os melhores são votados -, concluiu.
Lênin retoma a palavra e explica o plano: - Desde que chegamos aqui que lutamos para conquistar D.E.U.S. Mas não é fácil, sabe como é. Há uma legião de pensadores, filósofos, cada um mais esperto que o outro; muitos estão aqui há muitos séculos, têm prerrogativas... Não é fácil -, contou Lênin, passando a mão na calva , ar preocupado. Lênin continua: - Precisamos conquistar D.E.U.S porque, como já foi dito, o que for escrito no céu, fica escrito também na terra. Assim, estamos com Marx aqui no Céu para que haja mais justiça na Terra.
- A oposição acha que quanto mais sofrimento na terra, melhor para bem temperar o caráter daqueles pobres diabos que estão lá penando -, acrescentou Trotsky. – Mas achamos que eles estão ultrapassados, queremos apressar o processo, achamos que chegou a hora -, disse Lênin, elevando a voz, o punho erguido num gesto que Gullar reconheceu de uma fotografia antiga.
O poeta balança a cabeça sentindo o início de uma crise. Não queria mais nada disso dessa história de luta, queria o não-ser apenas, a tranqüilidade de não ter consciência, lembranças, memórias, decompor-se em paz pelo trabalho eficiência dos vermes, virar moléculas apenas, que alimentariam as árvores pelas raízes, que gerariam frutos, que seriam comidos, num ciclo interminável de transformação. Seria uma ótima maneira de continuar existindo. E agora essa de luta que continua. Que maçada.
- Ta bom, ta bom, a luta continua, mas eu acabei de morrer, preciso de umas férias, certo? -, reclamou Gullar.
- Tudo bem, voltamos depois, mas ó, há muitos grupos políticos por aí. Não vá cair na conversa deles, lembre-se de quem somos, temos preferência -, avisa Lênin. Com ar grave e calmo, os três fazem um pequeno movimento de reverência com a cabeça em sinal de despedida e antes de sair voando, elogiam a obra poética de Gullar.
Sentado na cama, o poeta imagina uma roupa para substituir aquele ridículo camisão branco com que estava vestido e, como se fosse mágica, ela se materializa. Ainda impressionado com o diálogo e com a cena final do trio voador, Gullar pensa em todas as religiões e transformações havidas na concepção de Deus desde o início dos tempos, em como a gestão de D.E.U.S era rigorosa na época do Velho Testamento, quando por qualquer dá-cá-aquela-palha o ser humano era fulminado por raios, dilúvios etc. Depois veio o Cristianismo e até um embaixador foi mandado à Terra para anunciar a Boa Nova, nome da nova política implantada. Os espíritos devem ter ficado decepcionados com o que a igreja fez do Cristianismo, como perseguiram e mataram em nome da fé, com se corromperam. Quem será que está no poder agora?, pensou Gullar, já sentindo a curiosidade aguçada.
- Preciso conversar com meus amigos comunistas -, disse, antes de sair também voando tão naturalmente que quase não acreditou naquilo tudo.
Orlando Cardoso | comentários(5)
25/07/2005 13:36 Pelo fim da caixa-preta (direto ao ponto)

Eis um assunto polêmico: financiamento público de campanhas. A primeira reação das pessoas é se dizer contra. Acham que terão mais uma despesa, não querem pagar para os candidatos fazerem campanha. É uma reação natural, mas sem perspectiva de futuro. O objetivo é acabar com a farra que vemos hoje em dia. Os últimos e aterrorizantes acontecimentos da política nacional mostram que não é de hoje que existe uma máfia de financiamentos de campanha, caixas dois institucionalizados, abastecidos por propinodutos, doações ilegais, um verdadeiro submundo muito rico, um vício de origem que corrompe os políticos desde antes da eleição. Isso tudo tem que acabar.
Uma campanha pública, obviamente, não teria a mesma pompa e circunstância das que se vêem atualmente. Para começar, doar cestas básicas, telhas, redes, tijolos, aterro etc seria uma ilegalidade tamanha que excluiria automaticamente o candidato da disputa, depois de um julgamento sumário.
A campanha se daria basicamente na televisão e no rádio, mas nada de muitos recursos, só uma câmera, um estúdio e as idéias do candidato. Quem não tiver competência que não se estabeleça. Lamento pelos meus amigos jornalistas e publicitários que periodicamente trocam de carro e fazem pequenas fortunas trabalhando em campanhas, elaborando enredos mirabolantes, roteiros fantásticos e etc. Teremos menos produção e mais consistência. O marketing político no Brasil, onde a corrupção é endêmica, teria que se exaurido de penduricalhos, afinal, o custo será pago com dinheiro público e não estamos aqui para pagar os efeitos especiais dos candidatos, queremos apenas conhecer suas idéias, transmitidas com o máximo de síntese e objetividade.
Com pouco dinheiro, a cidade não ficaria suja, nada de pichações, panfletos, faixas etc. Lamento pelas gráficas, fábricas de camisetas etc. Como todos sabemos, a corrupção aqui é uma pandemia e o remédio é amargo.
Cada partido receberia uma cota de patrocínio, proporcional ao tamanho do partido, mas não muito maior em comparação com os partidos menores. Assim, teríamos o fim do abuso de poder econômico. Esses e outros pontos da reforma política terão o poder de dar mais seriedade aos partidos e aos políticos. Sem tanto dinheiro circulando, tomara que menos candidatos bizarros se interessem pela disputa. Precisamos desesperadamente de políticos com mais espírito público. Quero campanhas pobres e políticos sérios já.
Você que é contra, pense, o dinheiro público é tão desperdiçado, quantos monumentos inúteis, pontes que levam de nada para lugar nenhum, obras inacabadas, mas o pior é o ralo por onde escorrem os recursos da corrupção, a propina que é paga com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Com o financiamento público, teremos a situação sob controle, sem a famosa caixa-preta, sem doações milionárias de empresários-tubarões, que não dão dinheiro de graça – não existe almoço grátis também na política -, querem ser beneficiados depois em contratos públicos etc. Chega! Pela transparência, vamos apoiar o financiamento público de campanhas.
Orlando Cardoso | comentários(6)
28/06/2005 14:31 O sonho acabou?
É a falência de uma geração, chegou a sentenciar um prócer tucano. Nem tanto, mas talvez seja o ocaso dramático de uma trajetória de vida espetacular protagonizada pelo militante de esquerda, ex-guerrilheiro, ex-ministro e deputado José Dirceu, o personagem central de todo o escândalo Correios-Mensalão, cujos detalhes todos estão cansados de conhecer e curiosos para saber os novos lances e descobertas. O futuro do país está envolvido. A coisa é séria gente.
Cara leitora (é tão machadiano referir-se ao leitor no feminino, além do que, quase todos os comentaristas deste blog são mulheres), olhe para foto acima do Zé Dirceu quando jovem, saindo preso após a queda do congresso da UNE em Ibiúna, lá no final dos anos 60, e diga se ele não teria futuro em Hollywood, ou no Cinema Francês, ou no Cinema Novo, com essa cara de galã de botar Brad Pitt no chinelo. Palmas para o cara, que deixou de arriscar a sorte no cinema para viver em pessoa uma aventura de vida digna de um drama político latino-americano.
Líder estudantil e membro de organização clandestina que exercitava a luta armada, preso e libertado em troca do embaixador norte-americano seqüestrado por outro grupo guerrilheiro, Zé Dirceu foi a Cuba fazer treinamento militar, fez cirurgia plástica para mudar suas feições, voltou ao Brasil, mas não morreu como a maioria dos seus companheiros de armas daquele tempo. Mudou de identidade e viveu clandestino durante anos no interior do Paraná, onde casou e teve filhos. Com a abertura, retomou a antiga identidade, desfez a cirurgia plástica, deixou a mulher e voltou à política.
Zé Dirceu cresceu e amadureceu junto com o PT, o partido marginal de extrema esquerda que foi ganhando cada vez mais a simpatia da população, em sucessivas eleições perdidas por Lula. No comando do partido, que tem em Lula um símbolo mais que um verdadeiro articulador, costurou as alianças que finalmente levaram o PT à vitória.
É na embriaguez do poder que se dá o desfecho dramático deste filme. Aquele garoto, que ia mudar o mundo, é agora um velho de rosto empapuçado, mas que continua querendo tomar o poder, só que trocou o fuzil pela caneta para nomear e a capacidade de recolher dinheiro oriundo da corrupção para comprar deputados e apoio ao governo.
Para mim, o final será um José Dirceu cassado, sozinho no escuro, esvaziando aquela garrafa de run Bacadi engarrafado em Cuba, expropriada pelos revolucionários da fábrica da multinacional na ilha, quando da tomada do poder em 1959 e presenteada a ele próprio Comandante Castro, pensando em tudo que fez e no que poderia ter feito, se traiu a sua geração ou a si mesmo. Corta para o Lula, que se safa depois de entregar a cabeça do ex-companheiro e acaba reeleito, festejado pela multidão e pronto para governar, desta vez, sem a influência contraditória do ex-guerrilheiro. Que tal?
Orlando Cardoso | comentários(1)
16/06/2005 13:37 Amizades virtuais

Estava eu conversando com uma amiga no sábado, no Café com Arte, um daqueles locais que servem para aproximar fisicamente as pessoas, quando aconteceu um daqueles momentos que despertam gargalhadas súbitas, pela constatação simultânea de algo muito engraçado. Conversávamos já bastante embriagados quando passou por ela um menino, trocaram um oi tímido, beijinhos no rosto e tchau.
Ela então me diz mais ou menos assim: - engraçado, tenho a maior virtual com esse menino, temos altas conversas, mas quando nos encontramos ao vivo, é assim, só oi... E logo, gargalhadas, muitas gargalhadas, coisa de bêbado.
Quem viu um filme que em português se chama “Nunca te vi, sempre te amei” (Charing Cross Road), de 1986, com Anthony Hopkins, Anne Bancroft e Judi Dench, sobre uma amizade de 20 anos sustentada apenas por cartas, entre dois aficcionados por livros raros (Bancroft, falecida recentemente) e Hopkins, ela uma escritora de Nova York, ele um livreiro de Londres, tem ali um exemplo de como amizades muito fortes podem nascer e crescer a distância, alimentadas pelo poder muito intenso das palavras e das afinidades.
Tenho uma tia que se correspondeu durante anos e namorou mesmo por cartas com um cara da Bahia. Um dia, depois de anos, ele apareceu num repente em Belém. Não sei como foi o encontro deles, mas parece que o namoro acabou e logo depois ela viveu uma profunda e longa depressão.
O que muda em relação a nós, que temos blog, fotologue, que estamos no Orkut e expomos nossa intimidade, namoradas, filhos, bichos de estimação, até idéias, na rede mundial de computadores, é que trocamos o fetiche das cartas, o prazer de recebê-las, cheirá-las, conferir-lhes o selo, o carimbo, abri-las, observar a letra, o cheiro da tinta, algum perfume, antes de lê-las e guardá-las, por um outro fetiche, uma espécie de voyerismo, porta aberta para acompanhar o dia-a-dia de outra pessoa, seus namoros, preferências, roupas que vestiu naquele dia e no outro, tudo público e com testemunhas.
Acho que rimos muito naquele dia por constatar que apesar de toda a intimidade das idéias compartilhadas, a timidez do encontro cara-a-cara nos mostra o quanto o virtual é mesmo virtual e não sabemos direito o que fazer com as mãos quando aquela figura feita de pixels se materializa em carne e ossos na nossa frente.
Talvez porque saibamos que ao escrever cartas, emails, posts, coments etc, sejamos em grande parte personagens criados por nós mesmos, personas virtuais, que revelam muito de nós, a ponto de despertar admiração e até amor, como se admira um escritor a ponto de falar dele com intimidade, mas sem nunca conhecê-lo de fato.
Orlando Cardoso | comentários(4)
06/06/2005 15:24 O cruel Sérgio Sampaio, 11 anos depois
Já li várias vezes que o Orkut é ótimo para isso e para aquilo, para encontrar quem não se via há séculos, fazer contatos com as mais diversas finalidades. Agora posso dizer o mesmo. Graças ao Orkut, pude ouvir a gravação caseira - voz e violão - de “Polícia, bandido, cachorro, dentista” e de “Em nome de deus”, músicas jamais gravadas oficialmente pelo Sérgio Sampaio, o genial cantor e compositor capixaba morto em 1994. Para quem não conhece, o Sérgio Sampaio é uma mistura homogênea e original de Raul Seixas (trocando-se a fixação no rock pela música brasileira) com Nelson Gonçalves (pelo vozeirão, sem a empostação barroca) e Paulinho da Viola (pelo domínio da linguagem do samba), tudo numa embalagem pop, um lirismo pungente nas belas poesias e uma atitude sinceramente hippie, nunca assimilada pelo mercado fonográfico brasileiro, que pirou a tal ponto de achar que o Sérgio Sampaio seria o sucessor de Roberto Carlos, não só pela coincidência de ambos serem naturais de Cachoeiro do Itapemirim, mas pelo estrondoso sucesso de “Eu quero é botar meu bloco na rua”.
Naqueles duros tempos da ditadura, ou se era um sucesso estrondoso ou pelo menos se esforçava para isso, ou conformava-se em viver à margem do mercado, correspondendo à expectativa dos fãs fiéis. Mas nem para isso o Sérgio tinha disciplina. Era um criador nato, que vivia como criava, sem limites. Boêmio ao extremo, difícil de se lidar, foi excluído pelas gravadoras e emplacou apenas três discos solo: “Eu quero é botar meu bloco na rua”, “Tem que acontecer” e “Sinceramente”, além do mitológico e conceitual “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez”, um dos melhores discos já gravados em língua portuguesa, com Raul Seixas, Miriam Batucada e Eddy Star.
As gravações perdidas de Sérgio Sampaio a que tive acesso, aparentemente feitas na cozinha de sua casa, com um daqueles gravadores retangulares grandes, que se usava antigamente – bem antigamente – para registrar aulas em cursinhos, são as mesmas que serão usadas na produção de “Cruel”, o disco que Sérgio Sampaio preparava em 1994, antes de morrer vitima de pancreatite e que seria sua primeira obra em formado CD. “Cruel” será finalmente lançado, com produção do Zeca Baleiro, que vai aproveitar a voz do Sérgio e acrescentar arranjos.
Na comunidade do Sérgio Sampaio no Orkut a expectativa é enorme. Lá a Jecy conheceu a Kláudia, que nos apresentou as gravações originais. Bastou criar uma conta no Gmail e receber as músicas. Por lá também apareceu o João Sampaio, o filho do Sérgio Sampaio, personagem da música “Menino João”. O João, com 20 anos mais ou menos, é a cara do Sérgio, só que de cabelos curtos. Em vez de samba, ele gosta de trance, mas parece ter o mesmo DNA farrista do pai.
A letra de “Polícia, bandido, cachorro, dentista” já foi divulgada aqui em um post anterior. Portanto, aqui vai a letra de “Em nome de deus”, gravada pelo Chico César no disco-tributo “Balaio do Sampaio”, de 1998. O Sérgio fez a música para a mulher de um amigo, pela qual estava apaixonado.
Em nome de Deus
Eu nunca pensei que pudesse querer
Alguma mulher como quero você
Se o mago soubesse
Juntasse o meu nome em S
Ao seu nome em C
Nas cartas de todo tarot que houver
Em todo o I-Ching eu podia não crer
Mas tudo é tão verde em seus olhos
Não dá pra não ver
Mas tudo é tão verde em seus olhos...
Você que se esconda, que eu vou procurar
Você nem se iluda, que eu vou lhe encontrar
Você pode ir e sair e sumir por aí
Que não vai se ocultar
Eu vejo seu rastro onde ninguém mais vê
Eu pego carona até na Challenger
E vou nos anéis de Saturno buscar por você
E vou nos anéis de Saturno...
Sem ser João Batista, você batizou
Meu corpo na crista das ondas do mar
E aí me abriu feito ostra
E colheu minha pérola pra Yemanjá
Agora que estou à mercê de sua luz
Em nome de Deus, me carregue
Me pregue em sua cruz
Em nome de Deus, me carregue...
Orlando Cardoso | comentários(4)
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